32 horas de mar, estradas, trilhos e ar entre Tânger e Bratislava

Imagine todos os meios de transporte criados e aperfeiçoados pelo ser humano ao longo de vários séculos. Agora ignore 99,9% deles, pois só foram necessários quatro para me levar de Tânger, no Marrocos à Bratislava, na Eslováquia. Piadas a parte, nessas últimas trinta e duas horas eu sinto como se tivesse feito uso de todos.

Mas nem de longe reclamo: a experiência de ir baldeando por várias cidades até chegar ao leste europeu foi extremamente divertida.

Considere este artigo um guia pra você que também fará um caminho semelhante (ou parte dele) e também um diário de bordo. Tentarei ao máximo conciliar utilidade e a narração das boas histórias que aconteceram desde minha despedida de Tânger até o início de meus três meses pela Europa. Boa leitura!

“Até logo, Marrocos”… e o Estreito de Gibraltar

Você provavelmente já ouviu falar do serviço de barcas que fazem a travessia do Rio de Janeiro à Niterói. Por aqui também existe esse tipo de serviço, feito por várias companhias e que cruzam diversas cidades ao longo do Estreito de Gibraltar, que é a separação entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, onde África e Europa quase fazem um high-five.

Minha jornada começou na manhã de sexta-feira, 28 de novembro de 2014. Acordei as seis e comi meu último pão com polenguinho da vaquinha no continente africano e fui para o porto de Tânger. Chovia muito e por conta do mau tempo descobri que o porto estava fechado. Detalhe: eu já estava com passagem comprada. Precisei “correr” para Tanger Med – porto situado a 40 km de onde eu estava. Por isso aqui vai uma dica valiosa pra qualquer que seja sua travessia pelo estreito: prepare-se para situações como essa. Se informe sobre ônibus que fazem o percurso até Tanger Med, pois na falta de tempo eu precisei pegar um taxi, que não saiu muito barato. Por sorte, cheguei a tempo de pegar a próxima barca pra Algeciras, na Espanha.

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O trajeto do Estreito de Gibraltar pode ser considerado um passeio turístico. Mesmo com o mal tempo é possível ver belas paisagens, mas de dentro de uma cabine fechada, sem aquele vento gostoso que os passeios de barco proporcionam (que pena).

Atravessando o Estreito de Gibraltar no serviço de barcas que parte de Tanger Med, Marrocos

Atravessando o Estreito de Gibraltar no serviço de barcas que parte de Tanger Med, Marrocos. Créditos: Adriano Castro

Não considere isto que vou falar como uma crítica, apenas uma curiosidade: o embarque na barca é, de certa forma, uma gambiarra! Você pega um ônibus depois de carimbar a saída em seu passaporte que lhe deixa em meio aos caminhões que fazem o carregamento de outros navios. Um segurança fica no meio do pátio tentando fazer com que as pessoas não saiam pelo porto andando, atrapalhando a vida dos operários. De repente a balsa as chama para o embarque, que é realizado pelo compartimento de carga. Você anda em meio às estruturas por onde os caminhões depositam os contêineres. É engraçado, e nada perigoso, por mais que pareça.

Área de embarque das barcas que fazem o trajeto Tanger Med - Algeciras, do Marrocos pra Espanha

Área de embarque das barcas que fazem o trajeto Tanger Med – Algeciras, do Marrocos pra Espanha. Créditos: Adriano Castro

Uma hora e meia depois eu já estava em Algeciras, na Espanha.

De Algeciras à Málaga

O próximo passo era pegar o ônibus para Málaga, pois de lá sairia meu voo para Barcelona. Por sorte um dos passageiros da barca me ajudou a encontrar a rodoviária, que fica a uns 20 minutos de caminhada após o porto de Algeciras.

Essa pequena cidade tem muito do Marrocos. Há vários restaurantes e pousadas que usam nomes de cidades como Marrakech. Já passava da hora do almoço e em um deles havia um anúncio de tajines. Não há como negar que eu já estava enjoado de tajine, afinal de contas comendo isso de dois em dois dias durante um mês e meio eu já não aguentava mais olhar nem pro nome. Então decidi que continuaria comendo os vários snacks, bolinhos e queijos da vaquinha que comprei pro trajeto.

Não tive tempo de explorar a cidade e contar melhor sobre o que há pra se fazer por lá, pois ao chegar à rodoviária (Ah sim! Algeciras tem uma rodoviária, pelo menos disso eu sei) descobri que o próximo ônibus sairia em dez minutos. Pra falar a verdade eu nem sei se há banheiros na rodoviária, pois nem tempo pra isso eu tive. Mas imagino que sim, não se preocupe.

A estrada entre Algeciras e Málaga é belíssima. O percurso é feito todo pela costa e é possível apreciar várias paisagens com cidades litorâneas e com muito verde (mesmo se tratando do outono europeu).

Não há muito que falar do trajeto, afinal de contas eu estava dentro de um ônibus e o contato que tive com o caminho foi da janela. Na imagem abaixo é possível ter pelo menos uma ideia da beleza dessa estrada que poderia ser um excelente palco para sua próxima road trip.

Estrada de Algeciras para Málaga, Espanha

Estrada de Algeciras para Málaga, Espanha. Créditos: Adriano Castro

Málaga (enfim o “descanso”)

Cheguei à Málaga por volta das dezessete horas em uma rodoviária que mais parecia a casa do Papai Noel. Para nós que estamos acostumados àquele clima triste de rodoviária, a primeira impressão é um choque enorme. Você desembarca em meio a pilastras enormes de madeira, decoradas com muito verde. Seu interior parece um mini shopping com todos os tipos possíveis de lojas de souvenires. Mas eu não queria explorar mais nada. Estava exausto a essa hora. Tudo que eu queria era minha cama (ainda chego lá).

Se você vai pegar um voo em Málaga, aqui vai a boa notícia: atravessando a rua logo atrás do terminal rodoviário há uma enorme estação de metrô, que é integrada aos trens. Por sorte há uma estação no aeroporto. Ou seja, basta comprar o ticket ali mesmo, sentar e esperar que os alto-falantes do vagão anunciem “aeropuerto”.

Fácil né? Mesmo assim eu consegui errar… desci uma estação antes. Sabe-se lá o que se passou na minha cabeça, mas acho que fiz as contas do número de estações errado. Nada que estragasse o percurso. Só precisei esperar mais quinze minutos pelo próximo trem.

Plataforma de embarque do metrô de Málaga, Espanha

Plataforma de embarque do metrô de Málaga, Espanha. Créditos: Adriano Castro

Uma boa noite de sono

Pronto! A primeira etapa do percurso já estava chegando ao final. No entardecer da sexta-feira eu já havia chegado. E que horas era meu voo? Às seis da manhã do dia seguinte. Não valia a pena procurar um albergue. O jeito foi passar a noite no aeroporto. Mas eu estava empolgado com o trajeto. Nada podia estragar essa empolgação.

As primeiras das várias horas que eu estive por lá foram usadas para explorar os vários salões e ver qual dos restaurantes conseguia cobrar mais caro em um sanduíche. E lá se vão mais snacks e bolinhos pra dentro. Chega uma hora que esses lanchinhos já não fazem mais efeito. O corpo pede arroz, feijão e bacon. Calma, Adriano, a Bratislava tá chegando – eu dizia a mim mesmo.

Com o tempo o cansaço foi chegando, junto com o sono. E se você acha que é um absurdo passar a noite em um aeroporto vai mudar seus conceitos se um dia precisar. A exaustão às vezes faz com que aqueles pisos limpos, impecavelmente brilhantes e gelados parecerem os colchões daquelas camas de filmes medievais, que lhe dão um abraço de urso quando você deita. Procurei uma parede qualquer (aprendi isso com meu cachorro), achei uma tomada, dei três voltas em torno de mim mesmo e deitei. Botei na tomada todos os meus dispositivos pra carregar: câmera digital, celular e notebook (pobres dos responsáveis pelo aeroporto de Málaga, que precisarão arcar com o rombo na conta de luz que causei nesse dia). Abracei todas as minhas malas e aparelhos que estavam espalhados pelo chão, (vai que alguém assalta este mendigão digital aqui) e dormi feito criança. Acordei às quatro da manhã com o despertador do celular.

Dormindo no aeroporto de Málaga, Espanha, a espera do próximo voo.

Dormindo no aeroporto de Málaga, Espanha, a espera do próximo voo. Créditos: Adriano Castro.

De Málaga à Barcelona

O voo de Málaga à Barcelona foi bem tranquilo. Até onde eu sei, pois dormi no momento que entrei na aeronave e só acordei no pouso.

Assim como Algeciras, não há muito que falar sobre Barcelona, pois só fiquei lá por quatro horas, aguardando o próximo voo pra Viena, na Áustria. Por isso aqui vai meu resumo sobre o aeroporto de Barcelona: é muito bonito e caro.

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De Barcelona à Viena

Essa sim foi uma viagem memorável.

Após uma decolagem com o mar de fundo, o piloto nos levou pra bem alto, de forma a fugir das fortes turbulências que pegamos no início, e pela primeira vez em três dias eu vi o sol. Estávamos bem acima da camada de neblina que cobria grande parte da Europa naqueles dias.

Avião no aeroporto de Barcelona que aguardava nosso embarque para Viena

Avião no aeroporto de Barcelona que aguardava nosso embarque para Viena. Créditos: Adriano Castro

Foi possível saber que estava perto da Áustria quando comecei a ver as montanhas nevadas dos Alpes que apareciam discretamente em meio às nuvens entre nós e o chão. Não consegui uma foto que prestasse. Mas acredite em mim quando falo que a vista era sensacional.

Tudo estava indo muito bem quando o piloto avisou: devido às condições de mau tempo em Viena, é provável de que precisaremos voltar para Barcelona, pois não há condições de pouso. Ele disse ainda que aguardaria por alguns minutos, já que não havia informações precisas. Ainda segundo ele, nem a temperatura na cidade havia chegado no rádio. Ficamos dando voltas no ar por um bom tempo até que veio o anúncio que me deixou um pouco apreensivo: A informação que temos é de que há muita neblina e isso pode prejudicar o pouso. De qualquer forma, farei uma única tentativa. Se perceber que não é possível retornaremos à Barcelona (we gotta take our chances). Será que eu entendi errado? Bom, ninguém ao meu lado entrou em pânico, e eu não seria o primeiro. Pra ser bem sincero, não sou o tipo de pessoa que tem medo de voar, mas qualquer coisinha fora do script eu já travo no banco e acho que acabou… é hoje que eu morro!

Despedi-me do Sol e o avião começou a descer. Mal conseguia enxergar a ponta da asa. Os minutos se passavam e nada. Não fazia ideia se estávamos a um metro ou a três quilômetros de altura. E o avião continuava descendo. Senti o trem de pouso baixando e a tremedeira que ele causa. Mas lá fora não via nada. Nada de chão, nada de árvores. Só nuvem! E, de repente, o chão! Nunca havia presenciado um pouso assim. Geralmente a gente vê o chão bem antes do pouso. Mas dessa vez foi diferente. Quando foi possível ver alguma coisa, era a pista de pouso. Todos os passageiros aplaudiram, e então pude perceber que não tinha entendido errado o fato de que o piloto tentaria pousar.

Nesse momento eu acabava de realizar um sonho de criança: pisar na Áustria. Sim! Era um país que desde criança eu queria conhecer. Sabe-se lá o motivo. Provavelmente vi algo sobre ele em algum filme ou desenho animado e isso ficou na minha cabeça. Mas o que mais me convenceu de que eu estava realmente no leste europeu foi o choque térmico ao sair do aeroporto. Desde o Marrocos eu estava passando apenas por temperaturas acima dos quinze graus. Inclusive no trânsito entre os aeroportos. Ao passar pela porta automática do aeroporto de Viena, o último resquício de temperatura amena foi o climatizador localizado em sua parte superior, porque logo depois tomei um tapa na cara de dois graus… foi impossível segurar o riso! Eu curto demais o frio!

Pena que foi por apenas alguns minutos, pois descubro que o próximo ônibus pra Bratislava saía em oito minutos. E não ache que na Áustria as pessoas são enroladas. Ao perguntar pra mulher do guichê como eu fazia pra saber como eu identificaria a estação certa que precisaria desembarcar na Bratislava, ela disse: não se preocupe, exatamente as 16:30 o ônibus estará na estação e aí você desce. Caramba! Que pontualidade.

As 15:30 em ponto o ônibus fechou as portas e partiu pra Eslováquia. Meus dez minutos de Áustria me permitiram tirar duas fotos, que ficaram horrorosas e não mereciam um lugar no blog.

Se seu destino é a Bratislava, Budapeste ou qualquer outra cidade no entorno de Viena, não se preocupe: há estações de trem e de ônibus partindo do aeroporto e todos os atendentes falam um bom inglês. Você não ficará perdido por lá.

Ônibus que sai do aeroporto de Viena, Áustria, e vai pra Bratislava, na Eslováquia

Ônibus que sai do aeroporto de Viena, Áustria, e vai pra Bratislava, na Eslováquia. Créditos: Adriano Castro

A estrada fantasma de Viena à Bratislava

Mentira. Não tem nada de fantasma nem coisas do tipo na estrada que vai de Viena à Bratislava. Minha exaustão após 31 horas de baldeação estavam me fazendo imaginar coisas. Mas que parece, parece!

Pra quem aprecia paisagens bucólicas e sem saturação como as que o ônibus percorreu tem ali um prato cheio. São várias fazendas no meio do nada, algumas com enormes geradores eólicos, todas cobertas pela névoa que chega a tampar os topos das árvores maiores. Pelo menos eu acho esse tipo de vista fantástica, mesmo sendo ela triste, no geral. Finalizo então minha jornada apreciando a janela do ônibus e as últimas fotografias vão logo abaixo, com todos os músculos do corpo cansados e a mente já embaralhando todos os tipos de pensamento possíveis.

Após chegar à Bratislava, fiz tudo que não podia no Marrocos, fui a um pub, pedi meio litro de chopp com um prato recheado de bacon e torresmo. Mas a Eslováquia é o assunto do próximo post. Até porque depois desse banquete eu caí na cama (de verdade dessa vez) e dormi por quase doze horas seguidas nada mais aconteceu.

Espero que tenham achado as dicas do artigo úteis caso você também esteja pra fazer um percurso parecido. E se você não pretende pisar por estas bandas, torço pra que tenha sido divertido ler a narração detalhada de cada passo, desde o Marrocos até a Eslováquia. Com tanta coisa acontecendo em tão pouco tempo o que não falta é caso pra contar! Deixe seus comentários e dúvidas logo abaixo… será um prazer respondê-los!

Grande abraço! Nos “falamos” no próximo artigo.

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Patio Hostel

Špitálska 35

Descrição obtida de Booking

O Pátio Hostel, a 400 metros do centro histórico de Bratislava, dispõe de um serviço de recepção 24 horas, computadores com acesso gratuito à Internet, chá e café gratuitos. O estacionamento privado no pátio está disponível, com um custo adicional.

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Na Bratislava, o almoço simples sai por volta de R$18,44, já o fast-food sairá por mais ou menos R$18,44. Considerando o cappuccino, podemos dizer que o cafezinho da tarde custa R$6,52. Em restaurantes, a garrafa d'água de 330ml custa R$3,73, o refrigerante - considerando também o de 330ml - custa R$4,87 e o pint de cerveja R$5,53.

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Adriano Castro

Formado em Ciência da Computação pela UFJF, trabalhou durante 10 anos como analista de sistemas até chutar o balde e tocar a vida como freelancer, carregando seus projetos para onde quer que vá. Créditos da imagem de capa: Adriano Castro