A sociedade não está preparada para as novas formas de trabalho

Como um trabalhador home-office há exatos três anos e por alguns longos períodos de tempo nômade digital, pude perceber que nossa sociedade ainda não está preparada para as modalidades de trabalho modernas. O movimento de pessoas que almeja largar as formas convencionais de contratação vem crescendo cada vez mais. Cargos que há uma década nem sonhavam em existir estão nascendo.

Além dos desafios pessoais como disciplina, capacidade de adaptação e criatividade, existem também fatores externos que, de certa forma, participam da rotina de quem trabalha por conta própria. No papel de quem vivencia algum desses desafios, digo que o que vou citar nos próximos parágrafos não representa ameaça ao modelo de trabalho que tenho seguido. Gostaria apenas de aponta-los e trazê-los a título de curiosidade para quem está correndo atrás desse estilo de vida.

Entenda agora porque eu acredito muito que a sociedade não está preparada para as novas formas de trabalho. Antes de mais nada, lembre-se: estou me baseando em experiências próprias como home-office e nômade digital.

O sagrado número de telefone

Um telefone em qualquer lugar do mundo

Um telefone em qualquer lugar do mundo. Créditos: Unsplash / Fonte: Pixabay

Com a falta de um lugar fixo no planeta e procurando estar em movimento o tempo todo, é comum trocar de número a cada fronteira cruzada. Doloroso mesmo é lidar com as companhias telefônicas. Não somente no Brasil, mas também no mundo, elas são extremamente desleixadas com seus clientes.

Voltando ao Brasil depois de uma longa viagem de seis meses pelos Estados Unidos me questionei se seria possível viver por aqui sem um número de telefone. A ausência de faturas salgadas e a imunidade aos desaforos que qualquer usuário enfrenta enquanto cliente dessas companhias me despertavam interesse nessa decisão.

E assim fui levando durante o primeiro mês: catando uma Wi-Fi aqui e ali e o número de celular praticamente não me fez falta. Até começar a depender de alguns serviços.

Para começar, em uma ida ao hospital, me pediram um telefone no momento do cadastro e eu disse que não tinha. A recepcionista não sabia lidar com a situação a partir daquele ponto, até que fui obrigado a dar o telefone da casa de meus pais, que fica em outra cidade. Caso contrário eu não poderia ser atendido simplesmente porque o sistema bloquearia o registro de minha entrada. Quem não tem um número de telefone faz o que? Inventa um?

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E esses números são sagrados até mesmo nos contextos mais modernos!

Foram várias outras situações menos importantes, como o cadastro em um aplicativo para pedir táxis. Mesmo com Wi-Fi eu fui obrigado a ter um telefone celular local. Até agora estou sem entender o porquê de isso ser obrigatório e não apenas um “extra” caso o taxista quisesse entrar em contato. Resultado: não consegui chamar o táxi pelo celular e o aplicativo perdeu um usuário.

Por fim, alguns outros serviços que dependiam de orçamento não aceitaram nem mesmo o telefone fixo que informei nos outros estabelecimentos. Muito menos o celular de um familiar que não estava coberto pelo mesmo DDD do local. Depois de gastar todas as minhas opções e reforçar: eu passo o dia inteiro com o Gmail aberto, podem falar comigo por lá, precisei dar o número de um amigo.

Infelizmente acabei solicitando um número de celular para evitar a fadiga, como dizia o saudoso Jaiminho. Mas ainda me questiono: será que um dia conseguiremos nos desgarrar da necessidade de um número? É preocupante pensar que até mesmo um dos aplicativos mais utilizados no mundo – o WhatsApp – exige também um número de celular!

Os comprovantes de renda “diferentões”

Várias e várias anotações

Várias e várias anotações. Créditos: cpastrick / Fonte: Flickr

A situação começa a ficar séria quando você percebe que nos últimos anos em que trabalhou como freelancer, seus comprovantes de renda são diferentes uns dos outros e todos picados. Cada empresa, cada cliente, cada freela que você pegou nesse meio tempo tem um recibo diferente – quando há recibo!

Alguns serviços dependem de comprovantes de renda. Aberturas de contas para investimentos, locação de imóveis e até mesmo alterações em seu limite do cartão de crédito fazem tais exigências. A falta de um carimbo em sua carteira de trabalho pode trazer algumas dores de cabeça. Aquelas declarações do imposto de renda e do carnê-leão podem ser muito úteis. Por isso lembre-se sempre de declarar anualmente seus rendimentos, por menores que sejam.

Somado à necessidade dos comprovantes de renda está a exigência de referências comerciais. Já perdi a conta de quantas vezes nesses últimos anos me pediram um telefone comercial. Diziam que o telefone de casa não valia. Ora, trabalhando de casa você queria o quê?

Blogueiro?

Blogueiro

Blogueiro. Créditos: Unsplash / Fonte: Pixabay

Sabe aqueles lugares que fazem cadastros em fichas de papel? Eles ainda existem aos montes: consultórios, locadoras de veículos pequenas, hotéis, etc. Quando você mesmo preenche ainda vai. Mas quando existe alguém responsável por preencher, na hora que perguntam a profissão é que vem a confusão: “Blogueiro? O que faz um blogueiro?”.

Tá bom, sou analista de sistemas. Pronto, resolvido.

Quando o cadastro é feito a título de registro, você pode dizer até que é auxiliar de astronauta. Não importa. Mas quando o cadastro é utilizado para traçar perfis de investimento, análise de crédito ou qualquer outra coisa que ofereça riscos a quem lhe está prestando serviço, blogueiro pode ainda não ser uma profissão.

E como fica o currículo?

Folha de papel quase em branco (adaptado)

Folha de papel quase em branco (adaptado). Créditos: geralt / Fonte: Pixabay

Longe de mim pensar que vou seguir meu atual estilo de vida por toda a vida. Torço e luto muito para isso e hoje ele funciona muito bem. Não tenho pretensão alguma, muito menos vontade de voltar ao mercado de trabalho. Mas ao mesmo tempo, preciso encarar essa possibilidade caso ela seja necessária um dia.

Quando essa possibilidade passa pela minha cabeça, surge uma dúvida: como fica o currículo de alguém que durante anos não teve um plano de carreira, estabilidade, reputação no mercado e outros atributos que, infelizmente, pesam em uma entrevista?

Bom, essa pergunta eu deixo para você pensar. Por enquanto continuo lidando com o sagrado número de telefone e com meus comprovantes de renda. Luto também para educar o mundo de que blogueiro é profissão, sim!

Agora é hora de participar. Você trabalha de casa ou então viaja pelo mundo levando a profissão com você? Quais barreiras a esse estilo de vida você identifica na sociedade?

Créditos da imagem de capa: geralt / Fonte: Pixabay

 

Sobre Adriano Castro

Formado em Ciência da Computação pela UFJF, trabalhou durante 10 anos como analista de sistemas até chutar o balde e tocar a vida como freelancer, carregando seus projetos para onde quer que vá.