Um simples jogo pode mostrar a forma como levamos a vida

Antes que você pergunte o que este artigo tem a ver com um blog de viagens, já lhe respondo: tudo! Você provavelmente chegou até o Viajei Bonito porque se interessa pela vida de ­home-office, tem curiosidade para saber se é possível mesmo manter um estilo de vida nômade digital ou então estava buscando por algum roteiro de viagens, o que não deixa de ser um sonho.

Várias são as razões pelas quais abafamos um sonho, principalmente quando sua realização vai de encontro ao que é aceito e ensinado pela sociedade. Não culpo quem não segue seus sonhos, pelo simples fato de que precisamos, antes de qualquer coisa, entender o que os bloqueia. Sempre gostei de viajar e há alguns anos comecei a imaginar como seria uma vida onde você pudesse tocar o trabalho de qualquer parte do mundo, isto é, com liberdade.

É incrível como pequenas coisas têm o poder de passar uma mensagem incrivelmente valiosa, e o que vou contar a você aconteceu comigo no final de 2013, quando eu estava prestes a abandonar toda minha estabilidade financeira para trabalhar de casa, por conta própria, sem emprego fixo e sem certeza alguma de que tudo ficaria bem. Esse movimento evoluiu um ano depois para algo próximo do nomadismo digital, e esse foi um dos maiores ganhos ao meu ver.

Na ocasião eu me encontrava saturado de escritórios, reuniões demoradas, “convites” para horas-extras, deadlines estabelecidos por outras pessoas e aplicados a mim… ufa! Cansei só de lembrar. O que eu precisava fazer era muito óbvio, mas eu ainda travava uma batalha mental entre a vida estável e a aventureira. Ora, eram dez anos de mercado de trabalho e toda a “sensatez” que a sociedade me ensinou desde cedo contra uma carência de liberdade que tinha acabado de nascer. Nem preciso dizer que considerava essas ideias como loucuras passageiras.

Se não fossem os 40 minutos diários de metrô entre o centro da cidade do Rio de Janeiro e meu apartamento, talvez eu jamais me sentisse entediado o suficiente para instalar um joguinho bobo de celular que me dopasse nesse tempo “improdutivo”. O que eu não sabia era que esse jogo abriria minha mente alguns dias depois.

A ideia do jogo é antiga, me lembro de ter visto algo parecido no Super Nintendo. Imagine que no teto há várias bolinhas coloridas penduradas e coladas umas às outras. No chão há uma bolinha que tem a capacidade de ser arremessada para o alto de acordo com sua mira. Ao subir, ela gruda nas bolinhas que já estão lá, e se a bolinha atirada se grudar a 2 ou mais bolinhas daquela mesma cor, elas estouram, liberando espaço. O objetivo do jogo é estourar todas as bolinhas. Para dificultar, a cada 10 segundos o teto desce um pouco mais. Se ele descer demais ou você não colar as bolinhas de mesma cor e elas atingirem o chão, você perde.

Simples, não?

Calma, que ainda existem dois detalhes importantes: Repare na imagem acima que logo abaixo da bolinha do chão existe outra, em uma espécie de fila. Assim que você atira a bola, a que estava logo abaixo toma o lugar da que foi atirada, assim como acontece com as balas de um cartucho de revólver. No lugar da bolinha anterior uma outra bola aleatória surge. O jogo ainda me dava a opção de inverter as bolinhas, isto é, trocar a que estava no chão pela que estava na fila. O segundo detalhe importante tem a ver com um bônus que acontecia apenas uma ou duas vezes por partida: a bola explosiva! Essa bola quando arremessada estourava várias bolas em seu raio, criando um grande buraco nas bolinhas e facilitando muito o jogo, mas ela era rara, como eu disse.

Quando eu descobri que era possível inverter a bola do chão com a bola da fila, passei a jogar esse jogo de forma mais estratégica. No momento em que a bola explosiva aparecia, eu simplesmente passava a inverter todas as jogadas, de forma a guardá-la para um momento de desespero, se acontecesse das bolas se aproximarem demais do chão. Não demorou muito, o jogo foi se tornando mais cansativo do que antes. Por quê? Porque agora eu passava a apertar a tela do celular duas vezes em vez de uma. Isto é, aos poucos fui deixando o “passatempo” de lado para me preocupar em inverter toda jogada, gastando o dobro do esforço. Tudo em troca de manter a bola explosiva para o final ou para um momento de necessidade.

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Em algumas fases a bola explosiva não era nem usada. Eu conseguia chegar até o final sem precisar dela. Ou então me distraía, o teto descia rápido demais, não achava um espaço para atirá-la e perdia o jogo com ela ali engatilhada.

Quando eu fazia isso, além de me preocupar em inverter as bolas sempre antes de atirar, eu não só estava gastando mais esforço e cabeça, eu estava abrindo mão de uma nova bola aleatória, uma nova bola que talvez pudesse ser até melhor do que a explosiva dado o arranjo de bolinhas no teto.

Enquanto toda essa complexidade tomava conta de um jogo que foi instalado no meu celular como um passatempo, minha mente, que já estava tomada por assuntos relativos a uma mudança de vida, começou a trabalhar no sentido de me mostrar como o meu comportamento e minhas atitudes perante o jogo influenciavam em meu estado de espírito. Isto é, o jogo nada mais era do que uma fatia bem simplificada de tudo.

Ao gastar mais esforço para manter a bola explosiva sempre na fila, eu fui tornando o jogo cansativo. Manter uma conta no banco que agrada aos olhos e, principalmente, traz uma certa segurança é cansativo e requer esforço: muito trabalho, disciplina para mantê-la e uma limitação extrema para não perder o controle e zerá-la. As viagens que alimentavam meu sonho eram sempre jogadas para um futuro incerto. Mas essa segurança é mais fantasia do que certeza: a qualquer momento posso morrer subitamente com essa conta no banco, ou então viver até o último dia de minha velhice sem realmente ter precisado dela. A qualquer momento as bolinhas podem encostar no chão ou então conseguirei limpar o teto sem precisar da bola explosiva.

Manter a bolinha explosiva ali na “reserva” me privava da aleatoriedade da próxima bolinha. Viver com segurança demais significa arriscar menos. Significa não permitir que sua vida seja aleatória o suficiente para surpreendê-lo, mesmo na iminência de um risco. E cá para nós, a vida é aleatória em sua essência, não há como negar, mas fechamos os olhos para isso e vivemos uma segurança falsa.

O jogo foi se tornando cada vez mais estratégico e menos divertido. Assim como na vida, nascemos, brincamos e, por algum motivo, tudo vai ficando mais sem graça com o passar dos anos. Nos tornamos estratégicos demais para viver na sociedade, em meio a um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e nos esquecemos que essa mesma vida já foi simples um dia, e nada mudou, a não ser a idade.

À medida que essas reflexões foram se consolidando, eu passei a arremessar a bola explosiva sempre que ela aparecia. E você não faz ideia do quanto isso foi divertido. De repente aquele jogo do qual eu já estava enjoando se tornou mais agradável e minhas idas e vindas no metrô estavam menos competitivas. Nada mudou com relação ao meu rendimento. Continuei passando das fases e perdendo em algumas na mesma frequência.

Esse mini cenário traçado em minha cabeça e a atitude para a qual eu estava olhando para algo simples que estava logo ali a minha frente tiveram uma “repercussão” enorme em mim e eu passei a entender que estava levando a vida exatamente daquele jeito: cultivando uma falsa segurança em troca de qualquer diversão.

Pode parecer coincidência, talvez seja, talvez não, mas na manhã em que eu terminei a última fase desse joguinho, eu já estava decidido a me demitir, arriscar e investir em meus projetos sem muitas cartas na manga, sem dinheiro suficiente para tal ou qualquer outra garantia de que tudo fosse dar certo.

Já faz quase três anos que isso tudo aconteceu, até hoje não precisei da bolinha explosiva e espero não precisar. No começo as coisas foram difíceis, sim. Trabalhar como home-office, não tendo um emprego fixo ou renda fixa era, de certa forma, assustador. Mas era divertido, e tudo foi se ajeitando. Hoje sou muito grato por ter tomado a decisão certa na hora certa. Tudo graças ao jogo? Claro que não, mas ele desempenhou um papel importante no sentido de servir como um espelho.

E onde eu quero chegar com tudo isso? Não digo para você instalar um jogo de bolinhas em seu celular como garantia de que você sairá iluminado dele. Apenas digo que não precisamos de muita coisa para perceber o que está errado ao nosso redor, basta estar motivado a enxergar, e, principalmente, ter disposição para mudar o que não está funcionando.

No meu caso foi um jogo, no seu pode ser qualquer outra coisa simples que talvez esteja sendo negligenciada, mas está tentando lhe dizer algo.

Se viajei? Sim! E este texto é uma verdadeira viagem, mas foi escrito assim como aconteceu. Viajei Bonito, viajei feliz e assim vou levando essas viagens. Até um próximo artigo!

“Prólogo”: um dia depois de tudo, o jogo foi desinstalado. Nada de mantê-lo salvo apenas como lembrança. Ali, naquele momento, ele já tinha cumprido seu papel.

Sobre Adriano Castro

Formado em Ciência da Computação pela UFJF, trabalhou durante 10 anos como analista de sistemas até chutar o balde e tocar a vida como freelancer, carregando seus projetos para onde quer que vá.