Estamos resolvendo ou criando problemas?

Com o advento da internet (nossa, como eu amo essa expressão) tem sido difícil acompanhar a evolução que se espalha por praticamente todos os nossos dispositivos eletrônicos, em especial, nossos smartphones.

Sério, pare pra pensar em algo que poderia ser inventado e que facilitaria sua vida. Agora procure no Google, provavelmente já existe um app pra isso.

Não há como negar, a gama enorme de aplicativos para celular coloca uma infinidade de robozinhos pra trabalhar pra gente. E isso não se restringe ao campo da automação. Não estou limitando esses robozinhos para tarefas corriqueiras ou cálculos matemáticos condensados em planilhas de Excel que economizam horas e mais horas dos seres humanos: quero destacar que esses robozinhos têm pensado e vivido por nós.

Que tal uma contextualização? Bom, somos um blog de viagens e o que mais gostamos de fazer é viajar. Uma simples viagem de carro exige conhecer o caminho e chegar aos pontos turísticos por conta própria, muitas vezes sem a ajuda de guias ou agências. A música também é sempre bem-vinda, uma boa câmera fotográfica é quase um item obrigatório.

Pra tudo isso já existe um app. O GPS hoje já cobre praticamente qualquer caminho pavimentado e dependendo da localização até as estradas de chão já foram mapeadas. O Spotify ajuda na montagem das playlists e, obviamente, o celular faz o papel da câmera fotográfica – salvos os casos onde você precisa de uma câmera profissional. Aliás, tem muito aparelho aí candidato a substituí-las um dia.

Esses aplicativos resolvem nossos problemas? Ô se resolvem! Com apenas alguns minutos você prepara tudo, pendura o aparelho na saída de ar condicionado do carro e pega a estrada. Alguns aplicativos ainda alertam você sempre que estiver próximo a radares! Quanta eficiência!

Quando paro pra pensar sobre toda essa modernidade fica claro pra mim que estamos caminhando na direção de resolver todos os nossos problemas com algoritmos. Enquanto dirijo observo a quantidade de vezes que consulto o celular pra saber se ainda estou na rota certa. E a atenção que eu tinha ao observar cada canto da pista pra saber se um radar se aproxima acabou. Me vejo então dirigindo sob as ordens de um robô: vire à direita, vire à esquerda, radar reportado à frente, desacelere, trânsito lento em 10 quilômetros, reajustando a rota, pare no posto Ipiranga pra comprar passagens aéreas e máquinas agrícolas.

E olha que isso é apenas um dentre os muitos aplicativos que usamos em nossas viagens.

Usamos muito o aplicativo do TripAdvisor que nos mostra quais atrações turísticas visitar nas cidades pelas quais passamos. Inclusive já indicamos o app em artigos passados. E com isso deixamos muitas vezes de aproveitar as atrações fora da mainstream que, obviamente, estão mais vazias e talvez sejam mais interessantes do que as indicadas pelo aplicativo. Mas ele virou nosso personal “roteirista”… mais um dentre os muitos robozinhos que têm nos acompanhado nas viagens.

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Há alguns dias assisti à palestra da startup brasileira que desenvolveu um aplicativo capaz de traduzir cardápios de vários países para o português e com isso permitir que turistas do mundo todo saibam se virar em nossos restaurantes.

Achei a ideia fantástica. Ora, quem chega por aqui não precisa mais se contorcer na hora de explicar aos garçons o que querem comer. Mas, peraí, isso era realmente um problema? Me lembro que durante meu mochilão pelo leste europeu visitei uma cidade na República Tcheca onde ninguém falava inglês e toda ida ao restaurante era uma novela pra descobrir do que se tratavam os pratos. Mas no geral eu ria, o garçom ria, chegavam pratos diferentes do que eu imaginava e o que não faltam são histórias.

É muito raro hoje em dia se perder com o GPS. Ou então pegar um caminho errado que resulta num caso daqueles que fazem todo mundo rir na roda de amigos. Ninguém mais para o carro no primeiro posto de gasolina pra pegar informações e de quebra ouvir recomendações de atrações próximas que não estão presentes no aplicativo do TripAdvisor.

Pouquíssimas pessoas “se dão ao luxo” de atravessar a cidade por conta própria: o Uber e os aplicativos de táxi certificam-se de mandar um veículo exatamente onde você está. O Google Maps também ajuda, indicando exatamente as trocas de ônibus e estações de metrô.

E as desculpas que temos pra usar tanto aplicativo são muitas: economizam tempo, nos poupam energia para coisas que não gostamos de fazer, nos trazem segurança, e por aí vai. Digo a você: poupam tempo uma ova!

Hoje em dia ninguém poupa tempo. Vamos supor que você gaste duas horas por semana com seu controle financeiro pessoal. Duas horas em um mundo corrido como o nosso são preciosas! Então de repente você é apresentado a um aplicativo que se conecta ao seu banco, às operadoras de cartão de crédito e que realiza todos os pagamentos de boleto e contas automaticamente, gerando no fim da semana um relatório de despesas. UAU! Agora eu tenho duas horas por semana para procrastinar! Não! Você vai procurar mais tarefas para ocupar essas duas horas. A cada aplicativo você se torna mais produtivo.

Quem gasta uma hora por dia cozinhando pode facilmente ganhar tempo com o iFood. Quem “perdia” duas horas por semana frequentando cursos de idiomas pode praticar no Duolingo sentado no vaso. Quem antes saía de casa pra procurar filmes na locadora pode economizar tempo escolhendo não um, mas vários títulos pelo Netflix.

Acontece que quanto mais robôs trabalham pra gente, mais robôs precisam ser gerenciados. Quanto mais tarefas você consegue cumprir no mesmo espaço de tempo, mais multitarefa precisa ser a sua mente e com uma capacidade incrível de gerenciar tanta coisa trabalhando pra você. Nada pode ser tão inteligente e eficiente quanto o raciocínio humano, então de tempos em tempos você precisará configurar e administrar seus robozinhos.

A pergunta que me faço é se essa estrutura é realmente sustentável. Hoje em dia já existem clínicas para tratamento de dependentes da internet. Ora, estamos cada vez mais nos distanciando das pequenas coisas, das coisas que os humanos costumavam fazer, das coisas manuais, de fazer apenas uma coisa por vez e fazer direito. Estamos cada vez mais perdendo o foco. Estamos substituindo instrumentos musicais, jogos de tabuleiro, cinema e uma infinidade de objetos e atividades pela telinha do celular. Chega a me surpreender como ainda não tem tanta gente surtando por aí.

Sempre que vejo empresas vendendo a ideia de que estão resolvendo um “grande problema das pessoas” eu penso na possibilidade de estarem ajudando a criar outros. Precisamos viver mais e em certos momentos aposentar alguns robozinhos.

Um grande abraço e até o próximo artigo!

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Adriano Castro

Formado em Ciência da Computação pela UFJF, trabalhou durante 10 anos como analista de sistemas até chutar o balde e tocar a vida como freelancer, carregando seus projetos para onde quer que vá. Créditos da imagem de capa: Andy Meyer / Fonte: Pixabay