Bariloche é conhecida como destino propício para esquiar e nada mais, certo? Errado! Foi no outono que eu e uma amiga encontramos na cidade muitas surpresas agradáveis e paisagens que vão muito além do branco nevado. Visitar Brasiloche (nome dado carinhosamente pelos argentinos, pois o local recebe cerca de 25 mil brasileiros entre junho e agosto segundo o governo) no inverno seria sinônimo de gastos muito além do que tínhamos no bolso. É quando os hotéis metem a faca nas diárias e os restaurantes duplicam o preço dos pratos. Decidimos conhecer a cidade durante um mochilão entre o país dos hermanos e o Chile sem muitas expectativas, mas a estação “das folhas caídas ao chão” se mostrou bem atrativa. Confesso que não tenho vontade nenhuma de voltar no período badalado.

Por si só, a cidade vale o passeio. Ruas tranquilas, arquitetura semelhante à suíça e um ar de vila interiorana, embora Bariloche tenha mais da metade do tamanho de Belo Horizonte. Ainda assim, esqueça os meios de transporte. Lá não é preciso andar de ônibus ou táxi. Por mais distante que um local seja do outro, andar pelas vielas é um capítulo à parte.

Bariloche, Argentina
Bariloche, Argentina. Créditos: Juliana Xavier

Bariloche está dentro do Parque Nacional Nahuel Huapi e é margeada por um lago de mesmo nome que tem mais de 400km de extensão. Pasmem, essa é quase a distância entre Rio de Janeiro e São Paulo. O nome da cidade, de origem indígena da tribo Mapuche, explica o cenário: Povo detrás das montanhas. E é mesmo o que mais se vê de qualquer ponto, uma cadeia montanhosa com vegetação exótica para os brasucas e água de diversos tons de verde por todos os lados. Não tem como não gostar.

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Bariloche em três dias

Foi o suficiente para conhecer todo o entorno. Trinta minutos de barco nos levaram à primeira parada do passeio à Isla Victoria. O lago agitado parecia mar. E se parecia mar, seria enjoo na certa. Logo, fui a única a ficar sentadinha e concentrada no meu lugar e deixar de alimentar as milhares de gaivotas que rodeiam os barcos afoitas por comida. Neste tipo de passeio, o ideal é mesmo procurar uma embarcação segura com um preço legal. Como não era temporada, até pechinchar foi possível. Pesquise bem as ofertas milagrosas antes de embarcar numa furada. De nada adianta pagar pouco para atravessar um lago revolto em uma canoa. Ninguém quer naufragar ou morrer congelado em plena viagem de férias, não é mesmo?

Passeio de barco em Bariloche, Argentina
Passeio de barco em Bariloche, Argentina. Créditos: Juliana Xavier

Fomos recebidas por sequoias gigantescas com troncos do diâmetro de um caminhão. Ao lado de coníferas e cedros do líbano, todas espécies trazidas dos Estados Unidos num processo de reflorestamento da ilha que ocorreu no início do século 20, elas compõem uma densa floresta. Difícil descrever a beleza do cenário, ainda mais no outono, quando o verde batalha espaço em meio às folhas de tons marrom, vermelho e alaranjado que insistem em enfeitar o chão. Caminhamos por uma trilha de cerca de um quilômetro nesta área. Mas é possível caminhar muito mais.

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Tons do outono colorem a Isla Victoria de março a junho
Tons do outono colorem a Isla Victoria de março a junho. Créditos: Juliana Xavier

A segunda parada do barco foi na península Quetryhue, mais precisamente no Bosque Nacional de los Arrayanes – nome de um arbusto de cerca de 5 metros de altura, mas que na região atinge, inexplicavelmente, os 20 metros. De tronco bem claro e com algumas machas brancas, elas fazem do bosque um lugar único, bem diferente de tudo que já tínhamos visto.

Trilhas por entre as árvores no Bosque de Arrayanes
Trilhas por entre as árvores no Bosque de Arrayanes. Créditos: Swift Jetsum / Fonte: Flickr

Para quem insiste em ver um pouquinho de neve, o melhor passeio é ao Glaciar El Tronador, local que guarda resquícios do inverno o ano todo. Maior montanha da região, há geleiras no topo e parte delas se soltam com frequência fora do inverno, causando barulhos estrondosos semelhantes a trovões que soaram como música para nossos ouvidos. Estar em um glacial nos fez lembrar que Bariloche é a porta de entrada para a patagônia argentina e entender um pouquinho desse universo.

Só é possível chegar até lá de carro ou em passeios contratados. Mas há empresas menores, com vans menos pomposas, mas que atendem perfeitamente ao objetivo. Antes de chegar ao Tronador, há diversas paradas em pontos com paisagens tão belas quanto o Glaciar em si. Por conta do degelo das montanhas, até mesmo cachoeiras podem ser vistas pelo caminho.

Uma dica de ouro: não deixe a cidade sem comer chocolate artesanal em uma das inúmeras lojinhas locais. Sim, nada mais turistão que comer chocolates em Bariloche. Mas, nesse caso, não é nenhuma armadilha pega bobão. Estivemos por lá nas proximidades da Páscoa e só não contabilizamos quilinhos a mais porque andamos bastante pela cidade. Como fora de época existem mais lojas desse tipo do que pessoas nas ruas, dá para comprar chocolates deliciosos nas lojinhas menos badaladas a preços bem atrativos.

Fato é que lá, no sul mais sul em que já estivemos na vida, nossas paletas de cores e sorrisos ganharam novos tons.

Como chegar a Bariloche

Somente no inverno há voos diretos do Brasil para Bariloche. No nosso caso, pegamos um voo para Buenos Aires e deixamos para decidir lá se iriamos de ônibus para a região da Patagônia ou compraríamos outra passagem de avião. Como o preço estava atrativo, – mais um ponto para a baixa temporada! – nossa escolha foi a via aérea. Porém, foi preciso mudar de aeroporto. Nada que um ônibus conexão não tenha resolvido. Já em Bariloche, pegamos um Remisse – uma espécie de táxi mais em conta que os táxis reais.

De ônibus a viagem fica bem mais longa, mas não menos válida. São 1592 km percorridos em cerca de 20 horas. Já fiz viagens semelhantes mais de uma vez e ninguém morre. São servidas refeições e os ônibus são bem confortáveis. Fora as paisagens, já que é preciso cruzar toda a Argentina.

Hospedagem

Nos hospedamos na Hosteria El Ñire, a mais barata que encontramos. Uma cabana toda de madeira, simples, aconchegante e que atendeu muito bem nossas não tão altas expectativas. Ainda estava incluso aquele café da manhã argentino caprichado no açúcar: nada de manteiga ou requeijão. Geleias e doce de leite à vontade para passar no pão ou nas bolachas.

Mas não faltam opções para todos os gostos e bolsos em Bariloche. Procure ficar no centrinho para facilitar os deslocamentos e andar menos.

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E aí? Ficou com vontade de visitar Bariloche no outono?

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Juliana Xavier

Formada em Comunicação Social, após 10 anos empreendendo seus conhecimentos em grandes empresas, decidiu que era hora de empreender em si mesma e ser livre para criar o que quiser.

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Créditos da imagem de capa: Emilio Küffer / Fonte: Flickr

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