Já diz o velho ditado: a primeira travessia a gente nunca esquece. Quem está acostumado ao montanhismo pouco sente durante os quase 40 km que ligam Lapinha da Serra à terceira cachoeira mais alta do Brasil. Mas quem não é adepto das longas caminhadas precisa ter muita determinação para cumprir o percurso – afinal, desistir no meio do caminho não é uma opção.

Aceitei o desafio de um grupo de amigos há mais de sete anos e partimos rumo a Lapinha da Serra, um vilarejo com cerca de 300 habitantes e visual encantador, numa sexta-feira de manhã. Após um almoço delícia ao pé da serra, com direito a comida mineira servida no fogão a lenha a R$ 15 (valor aferido em 2016), era hora de encarar a primeira e mais difícil etapa da Travessia Lapinha-Tabuleiro. Cerca de 18 km de muitas subidas separavam o início do trajeto do nosso primeiro ponto de acampamento, a casa da dona Ana Benta. Além do caminho acidentado em si, em pleno fevereiro, o sol forte já anunciava que seria uma das pedras nas nossas botas e foi. Nossa sorte é que estávamos com grande reserva de água e há alguns pontos de coleta pelo caminho.

É possível diminuir o esforço e dar a volta pelo Pico da Lapinha ao invés de fazer o percurso por ele. Mas, cá entre nós, seria queimar a largada, né? Caminhando de oeste a leste da Serra do Espinhaço, as cerca de 6 horas de caminhada foram acompanhadas pelo silêncio profundo e paisagens típicas do cerrado mineiro – campos rupestres e alguns capões de mata atlântica.

Dona Ana Benta é uma senhora que mora sozinha e, assim como todos os outros poucos moradores do caminho, vive da agricultura de subsistência. Se o grupo quiser, ela faz uma janta simples e serve café da manhã a preços justíssimos. Porém, ela faz pouca comida pois não sabe quantos montanhistas vão aparecer por lá. Por isso, não conte que terá comida quando chegar. É bônus da travessia. Já se chegar cedo você pode descolar até uma cama em um dos quartos da casa – que foi o que aconteceu comigo.

O segundo dia de caminhada começou com as dores do dia anterior, mas nos presenteou com um trajeto mais tranquilo e plano. A casa da dona Maria, nossa segunda anfitriã, chegou rápido e foi possível montar acampamento, deixar as mochilas e seguir viagem até a parte alta da cachoeira do Tabuleiro sem peso nas costas. Um alívio e tanto. Como há pontos bem íngremes, creio que foi a melhor opção.

Grandes trechos planos facilitam caminhada no segundo dia

Grandes trechos planos facilitam caminhada no segundo dia. Créditos: Vitor Moreira

No alto da cachoeira, antes mesmo da queda livre de 273 metros – o equivalente a um prédio de 91 andares – formam-se jardins naturais com grandes bromélias e orquídeas, além de pequenos poços e quedas d’água. Um brinde para quem caminha sem parar há dois dias. Para ver a cachoeira de cima, é preciso se arrastar nas pedras pois o vão enorme causa vertigens. Em pé, seria um grande risco cair penhasco abaixo.

A casa da dona Maria fica num platô lindo que, à noite, iluminado pela lua e as estrelas, ganha contornos impressionantes. Jantamos no mesmo esquema da dona Ana Benta, e fomos dormir. Na manhã seguinte, duas horas e meia de caminhada cadenciada nos levaram até a entrada do Parque Estadual Serra do Intendente, de onde sai uma trilha bem íngreme até a parte baixa da cachoeira.

Se você é do tipo que acha que para baixo todo santo ajuda, saiba que esse foi um ledo engano. Já com as articulações fadigadas dos dias anteriores e com a mochila parecendo pesar mais que o normal, chegar até o poço foi dolorido. Os joelhos quase pediram arrego. Mas não posso dizer que não valeu a pena. A queda de Tabuleiro forma uma piscina natural grande e funda. E o melhor: é livre para banho. Excelente forma de terminar a travessia, descarregando todo o cansaço nas águas geladas cor de caramelo da imensa cachoeira mineira.

Pode ter certeza que encarar a Travessia Lapinha-Tabuleiro será recompensante para a mente e a alma, por mais que exija um pouquinho do seu físico. Colecionei bolhas gigantes, mas foi a minha primeira de muitas. Tomei gosto pela coisa e não parei mais de “montanhar”.

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Como chegar?

Como em qualquer travessia, você começa a caminhada em um ponto e termina em outro. Por conta disso, ir de carro não é uma opção. Como éramos seis pessoas, optamos por alugar um transfer em Belo Horizonte que nos deixou e buscou nos lugares que precisávamos. Mas também é possível ir até Lapinha da Serra de ônibus (destino final Santana do Riacho) e lá conseguir transporte, oferecido pelos próprios moradores locais, até o ponto de partida da aventura – a base do Pico da Lapinha. No retorno, o mesmo esquema. Basta pagar um transfer do parque até a rodoviária de Conceição do Mato Dentro.

Perguntas que todo mundo faz

Eu aguento a travessia?

Provavelmente sim. Os sedentários apenas sofrem muito mais. Eu não era sedentária, mas não estava acostumada a longas caminhadas em montanhas. Sofri o suficiente para querer voltar. E quem sobrevive bem ao primeiro dia, vivencia os demais com mais facilidade.

É preciso guia?

É recomendável. Há quem faça sem, mas a probabilidade de ficar perdido se você não tem experiência em montanhismo é enorme. Os nativos fazem o trajeto com pequenos grupos com a maestria de quem cresceu naquelas terras e a um preço amigável. Por menos de R$ 200 você também encontra grupos saindo de Belo Horizonte (MG).

Dá para fazer o trajeto em menos dias?

Dá sim. Há grupos que fazem o trajeto com apenas uma noite, iniciando a caminhada bem cedinho. Mas optamos pelas duas noites para poder caminhar com calma e curtir a paisagem sem pressa.

Tem sinal de telefone ou wi-fi?

Também não. Em raríssimos momentos pode ser que seu celular pegue um rastro de sinal. Por isso é preciso aguentar até o fim. Não será possível chamar um helicóptero para lhe resgatar.

E se chover?

Molha e seca. Na pior das hipóteses pode ser necessário abortar alguns trechos.

O que devo levar?

Leve o mínimo de volume possível para comer e dormir bem. Lembre-se que, quanto mais pesada a mochila, maior a sua dificuldade em cumprir as etapas. Barraca e saco de dormir são fundamentais. O isolante térmico não é necessário, mas dá mais conforto. Frutas, barras de cereal, chocolate e sanduíches caem bem. Comidas de cozimento rápido, como macarrões instantâneos, somente se o grupo levar um liquinho.

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Juliana Xavier

Formada em Comunicação Social, após 10 anos empreendendo seus conhecimentos em grandes empresas, decidiu que era hora de empreender em si mesma e ser livre para criar o que quiser.

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Créditos da imagem de capa: Rafael dos Reis Pereira / Fonte: Wikimedia Commons

3 comentários em “Travessia Lapinha-Tabuleiro: muito ganho para pouco gasto”

  1. A descrição foi bem parecida com o que rolou comigo, só que eu tive menos comida, acampei e fui sozinho com o guia. Valeu pelo texto, me ajudou muito!

  2. Muito bom o texto, já fiz esse trajeto e para mim foi de muita superação pois sou meio sedentário e pra piorar sou fumante a 22 anos, no segundo dia tive que tomar dorflex pras dores musculares mas no resto foi tudo maravilhoso, queria voltar pelo mesmo caminho…

  3. Só pra reforçar que a Dona Benta faleceu tem anos mas o sobrinho dela preserva o lugar do mesmo jeito que ela, com muita receptividade e hospitalidade, melhor travessia do Brasil,

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