Diário a Travessia Lapinha x Tabuleiro: roteiro para 3 dias + dicas práticas
A Travessia Lapinha-Tabuleiro é uma das rotas tradicionais entre os amantes de trilhas em Minas Gerais.
E como diz o velho ditado: “a primeira travessia a gente nunca esquece“. Quem está acostumado ao montanhismo pouco sente durante os quase 40 km que ligam Lapinha da Serra à terceira cachoeira mais alta do Brasil. Mas quem não é adepto das longas caminhadas precisa ter muita determinação para cumprir o percurso. Afinal, desistir no meio do caminho não é uma opção.
Aceitei o desafio de um grupo de amigos e partimos rumo a Lapinha da Serra numa sexta-feira de manhã e terminamos na Cachoeira do Tabuleiro, no domingo à tarde, cansados e maravilhados.
Aproveito que a vivência está fresca na memória para montar um guia completo com as informações necessárias para fazer a travessia de Lapinha da Serra a Tabuleiro reduzindo as chances de perrengues. Aqui você vai encontrar dicas para se preparar, como chegar (e voltar), o que levar na mochila, onde se alojar e algumas percepções pessoais sobre o percurso.

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⚠️ ATENÇÃO!
Para fazer a travessia Lapinha-Tabuleiro, é necessário preencher o formulário de solicitação do Parque Natural Municipal do Tabuleiro com pelo menos 7 dias de antecedência.
Onde fica a Travessia Lapinha-Tabuleiro?
A Travessia Lapinha-Tabuleiro fica na Serra do Espinhaço, região central de Minas Gerais. O percurso liga o distrito de Lapinha da Serra, que pertence ao município de Santana do Riacho, ao distrito de Tabuleiro, em Conceição do Mato Dentro.
Com cerca de 40 km, a trilha atravessa áreas do Parque Natural Municipal do Tabuleiro e da Serra do Cipó, passando por campos rupestres, cachoeiras, rios e paisagens espetaculares típicas do Espinhaço. Um prato cheio para quem gosta de fotografia e observação da natureza.
Como chegar ao início da travessia?
A Travessia Lapinha-Tabuleiro começa no povoado de Lapinha da Serra, então é necessário chegar a Santana do Riacho e depois seguir para o vilarejo. É possível fazer isso de ônibus, carro e até de excursão, se você estiver na capital.
Ônibus
Na ida, você precisa chegar primeiro a Santana do Riacho. A Saritur tem ônibus diariamente partindo de Belo Horizonte com parada em Lagoa Santa. As passagens custam R$ 42,78 (agosto de 2026) e a viagem dura aproximadamente 4 horas.
De Santana do Riacho é necessário pegar um transporte interno até Lapinha da Serra, que pode ser táxi, mototáxi, transfer ou carona. Espere pagar em torno de R$ 50 para o taxista, valor que você pode dividir com outros viajantes.
Já na volta, saindo de Tabuleiro, a melhor opção é ir até Conceição do Mato Dentro, o que também pode ser feito com transfer, táxi ou carona. Se você for contratar alguma agência local para guiar a travessia, adicionar o transporte vai valer a pena pela comodidade.
A viação Serro te leva de volta de Conceição do Mato Dentro a Belo Horizonte em uma viagem que dura entre 3 horas e meia e 4 horas. O preço é de R$ 94,70 (agosto de 2026).
Carro
Para quem mora fora da capital, viajar de carro é mais prático, porque evita as numerosas baldeações. Usando o Waze, dá para chegar sem percalços, inclusive recebendo avisos sobre os radares do caminho.
A estrada até Santana do Riacho é asfaltada e está em bom estado de conservação, já a estrada até Lapinha da Serra é de terra, e as condições podem não ser tão favoráveis durante a temporada de chuvas.
Será necessário contratar o serviço de resgate de veículos para que alguém leve o seu carro até a saída do Parque Natural Municipal do Tabuleiro, que é onde a travessia termina.
Vou deixar alguns contatos para você cotar os preços, mas espere pagar por volta de R$ 450.
Gil Cesar
Instagram: @gildoespinhaco
WhatsApp: (31) 97150-4109
Marco Antônio
Instagram: @dalapinhaaotabuleiro
WhatsApp: (31) 97152-7982
Bambu Aventura
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WhatsApp: (31) 98797-7851
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Qual é a melhor época para fazer a travessia?
A melhor época para fazer a Travessia Lapinha-Tabuleiro é entre abril e setembro, durante a estação seca em Minas Gerais. Nesse período, chove menos, as trilhas ficam mais firmes e os rios costumam estar mais seguros para atravessar. Maio a agosto costuma ser especialmente agradável, com dias ensolarados e temperaturas mais amenas.
Evite os meses de verão, principalmente de dezembro a março, quando as chuvas são mais frequentes e podem aumentar o volume dos rios e dificultar a travessia.
Diário da travessia Lapinha-Tabuleiro
Fazer a Travessia Lapinha-Tabuleiro em três dias permite aproveitar o caminho com mais calma e, principalmente, prestar atenção às paisagens que aparecem ao longo do percurso.
Neste diário, conto como foi cada dia do percurso, incluindo os trechos mais cansativos, os lugares onde paramos e os momentos que mais marcaram a caminhada.
Dia 1: de Lapinha da Serra ao primeiro acampamento
No primeiro dia da travessia Lapinha-Tabuleiro foram 18 km de caminhada, contando do início do trajeto ao primeiro ponto de acampamento.
A trilha começa nas proximidades da Lagoa da Lapinha e logo ganha altitude, nos levando por uma subida com terreno rochoso.
Além do caminho acidentado em si, em pleno fevereiro, o sol forte já anunciava que seria um grande incômodo e foi. Nossa sorte é que estávamos com grande reserva de água e há alguns pontos de coleta pelo caminho.
É possível diminuir o esforço e dar a volta pelo Pico da Lapinha ao invés de fazer o percurso por ele. Mas, cá entre nós, seria queimar a largada, né?
Nossa primeira parada aconteceu depois de cerca de 3 km de caminhada, na Capelinha dos Tropeiros. O pequeno altar de pedras foi construído por peregrinos de Tabuleiro em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, como agradecimento pela proteção durante a descida.
Aproveitamos para fazer uma pausa, conhecer o lugar e, claro, tirar algumas fotos.


Ao longo do caminho, passamos por mirantes naturais com vistas para a Lagoa da Lapinha e as montanhas ao redor, além de campos rupestres, afloramentos de quartzito, capões de Mata Atlântica, vales e cursos d’água, incluindo a Prainha do rio Parauninha, onde paramos para encher nossos cantis e tomar um banho gelado. Era a recompensa depois de mais de 15 km de subida com a mochila nas costas.


Caminhando de oeste a leste da Serra do Espinhaço, as cerca de 6 horas da nossa jornada foram acompanhadas pelo silêncio profundo e paisagens típicas do cerrado mineiro, mas ainda tínhamos mais 1,5 km para percorrer até o alojamento.

Hospedagem e jantar no primeiro dia de travessia
Na primeira noite, ficamos na antiga casa de Dona Ana Benta, uma mulher muito querida pelos moradores locais. Ela viveu ali por quase 70 anos e ganhou o título de guardiã da serra.
Foi Dona Ana quem acolheu os primeiros caminhantes que se aventuraram pela Travessia Lapinha-Tabuleiro, fazendo de sua casa o primeiro ponto de apoio do percurso.
Depois de seu falecimento, o lugar passou a ser administrado pelo sobrinho, Lucas. Hoje, quem passa por ali pode jantar, tomar banho, acampar e começar o dia com café da manhã. Quem chega cedo ainda tem a chance de conseguir uma cama dentro da casa. Foi o que aconteceu comigo!
Como reservar:
- Telefone: (31) 99120-0991
- Instagram: @anabenta_picodobreu
Dia 2: chegando ao topo da Cachoeira do Tabuleiro, a mais alta de Minas Gerais
O despertador no Pico do Breu soa diferente. O cantar dos passarinhos e os latidos dos cachorros nos avisam que o dia já clareou e que a jornada continua. Depois de um café reforçado, nos despedimos do Lucas e seguimos para o nosso próximo ponto de apoio, a 6 km de distância.
Preciso dizer que o segundo dia de caminhada começou com as dores do dia anterior, mas nos presenteou com um trajeto mais tranquilo e plano. Pelo menos nessa primeira parte.
A Casa do Seu Zé de Olinta, nosso segundo ponto de apoio, chegou rápido e foi possível montar acampamento, deixar as mochilas e seguir viagem até a parte alta da cachoeira do Tabuleiro sem peso nas costas. Um alívio e tanto. Como há pontos bem íngremes, creio que foi a melhor opção.
No caminho, passamos por cânions de pedra impressionantes. Já no alto da cachoeira, antes mesmo da queda livre de 273 metros (o equivalente a um prédio de 91 andares) formam-se jardins naturais com grandes bromélias e orquídeas, além de pequenos poços e quedas d’água.
Um brinde para quem caminha sem parar há dois dias!


Para ver a cachoeira de cima, é preciso se arrastar nas pedras, pois o vão enorme causa vertigens. Em pé, seria um grande risco cair penhasco abaixo.


Protetor solar, óculos escuros, chapéu com proteção para o pescoço e cantil de água são itens indispensáveis, já que a trilha é aberta, com pouquíssima sombra.
Hospedagem e jantar no segundo dia de travessia
Nosso segundo pernoite foi na casa de outro antigo guardião da serra, Seu Zé de Olinta, que também já não está mais neste plano. Hoje, o local é administrado por Dona Maria e Eva, respectivamente sua esposa e sua filha.
Ali, é possível escolher entre uma cama em quarto compartilhado, alugar uma barraca, caso você não tenha levado a sua, ou simplesmente pagar pelo espaço para montar a própria barraca. Em qualquer uma das opções, estão incluídos banho, jantar e café da manhã.
Em agosto de 2026, os valores variavam de R$ 120 a R$ 190, conforme o tipo de acomodação escolhido. Dessa vez, tínhamos sinal telefônico e 5G da Claro, Vivo e Tim.
Como reservar:
- Telefone: (31) 99609-2655
- Instagram: @zedolinta
Dia 3: Desafios finais e chegada a Tabuleiro
Na manhã seguinte, duas horas e meia de caminhada cadenciada nos levaram até a entrada do Parque Estadual Serra do Intendente, onde deixamos nossas mochilas e seguimos por uma trilha bem íngreme até a parte baixa da Cachoeira do Tabuleiro.
Se você é do tipo que acha que para baixo todo santo ajuda, saiba que esse foi um ledo engano. Já com as articulações fadigadas dos dias anteriores, chegar até o poço foi dolorido. Os joelhos quase pediram arrego. Mas não posso dizer que não valeu a pena.
A queda de Tabuleiro forma uma piscina natural grande e funda. E o melhor: é livre para banho. Excelente forma de terminar a travessia, descarregando todo o cansaço nas águas geladas cor de caramelo da imensa cachoeira mineira.



Pode ter certeza que encarar a Travessia Lapinha-Tabuleiro será recompensadora para a mente e a alma, por mais que exija um pouquinho do seu físico. Colecionei bolhas gigantes, mas foi a minha primeira de muitas. Tomei gosto pela coisa e não parei mais de “montanhar”.
Dicas práticas para fazer a travessia Lapinha-Tabuleiro
Fiz algumas anotações com dicas práticas que podem facilitar a dinâmica da travessia:
- Abasteça o carro antes de chegar a Lapinha da Serra: nem em Lapinha e nem em Tabuleiro você encontra posto de gasolina e oficina mecânica, então é melhor encher o tanque em Santana do Riacho, levando em conta que alguém vai precisar fazer a entrega do veículo no Parque do Tabuleiro.
- Tenha dinheiro em espécie: você estará em uma região remota e nem todos os pontos de apoio trabalham com cartão ou têm sinal de internet. Não há caixa eletrônico no vilarejo, então faça o saque na sua cidade ou, numa última chance, em Santana do Riacho.
- Planeje os pernoites com antecedência: existem casas de moradores que recebem trilheiros, oferecendo refeições, banho, cama, barraca ou espaço para camping, mas é importante combinar a hospedagem antes de começar a caminhada, principalmente se você estiver viajando durante os feriados nacionais.
- Inclua jantar e café da manhã nos pontos de apoio: evite peso desnecessário e leve apenas lanches práticos, deixando para fazer as refeições mais robustas nos pontos de apoio. Seus ombros agradecem.
- Proteja-se do sol: a trilha é aberta, com pouquíssima sombra. Leve protetor solar FPS acima de 50, para o corpo e para o rosto. Se possível, vista-se com uma camiseta de mangas longas com proteção UV e chapéu com cobertura para o pescoço, se você tiver cabelos curtos.
- Leve um bom carregador portátil: não há tomadas suficientes para que todos recarreguem seus dispositivos eletrônicos. Recomendo o de 20.000 mAh da Geonav, que faz de 3 a 4 recargas completas, é pequeno, não pesa e não esquenta.
O que levar para a travessia?
Leve o mínimo de volume possível para comer e dormir bem. Lembre-se que, quanto mais pesada a mochila, maior a sua dificuldade em cumprir as etapas.
- Mochila com capa de chuva
- Barraca, saco de dormir e isolante térmico
- Camisa de manga longa com proteção UV
- Calça de material flexível e respirável
- Casaco corta-vento impermeável
- Botas de trekking impermeáveis
- Meias anti-bolhas
- Roupas íntimas
- Chapéu com amarração e proteção de pescoço
- Kit de higiene pessoal (pasta e escova de dentes, fio dental, sabonete, lenço umedecido, miniaturas de shampoo e condicionador, pente ou escova de cabelo)
- Repelente e protetor solar
- Cantil de 2 litros
- Pastilhas purificadoras de água
- Celular e máquina fotográfica com carregadores
- Carregador portátil recarregado
- Documento de identificação
- Sacolinha extra para lixo
- Dinheiro vivo
📌 Veja a lista de lanches práticos para trilha que você pode preparar antes de começar a travessia.
Perguntas comuns sobre a travessia Lapinha x Tabuleiro
Essas são as dúvidas que eu tinha antes de fazer a travessia e talvez responda às suas também. Mas se ficar alguma pergunta, escreva na caixa de comentários e a gente resolve.
A travessia não é fácil, há subidas íngremes e declives acentuados, sobrecarregando os joelhos. Além disso, há muitos trechos sem nenhuma sombra e ainda temos que carregar as nossas próprias mochilas.
Posso destacar três trechos que considerei mais desafiadores: a subida logo após sair de Lapinha da Serra, a subida antes da porteira do PNMT e a descida para o poço da cachoeira do Tabuleiro.
Certamente, os sedentários sofrem muito mais! Eu não era sedentária, mas não estava acostumada a longas caminhadas em montanhas. Sofri o suficiente para querer voltar. E quem sobrevive bem ao primeiro dia, vivencia os demais com mais facilidade.
É possível, mas não é recomendável. Há quem faça sem, mas a probabilidade de ficar perdido se você não tem experiência em montanhismo é enorme. E andar à toa com uma mochila nas costas sob o sol do cerrado não é uma decisão inteligente.
Os nativos cobram um preço amigável e fazem o trajeto com pequenos grupos com a maestria de quem cresceu naquelas terras.
É possível fazer a travessia Lapinha-Tabuleiro em 2 dias e 1 noite, desde que começando bem cedo. No entanto, optamos pelas duas noites para poder caminhar com calma e curtir a paisagem sem pressa.
Não. Em raríssimos momentos pode ser que seu celular pegue um rastro de sinal. Por isso é preciso aguentar até o fim. Não será possível chamar um helicóptero para fazer o resgate.
Por via das dúvidas, baixe o tracklog da travessia no Wikiloc para poder usá-lo offline e seguir com ajuda do GPS, principalmente se você optar por fazer o trajeto sem acompanhamento de guia.
Nas proximidades da casa do Seu Zé de Olinta começa a ter sinal de telefonia celular e o sinal de 5G é bom no alojamento, mas não conte com isso no restante da travessia.
Molha e seca. Na pior das hipóteses pode ser necessário abortar alguns trechos. Por via das dúvidas, é melhor conferir a previsão do tempo antes de programar a travessia.
Já esteve na região e tem dicas a acrescentar neste post? Conta pra gente!
A descrição foi bem parecida com o que rolou comigo, só que eu tive menos comida, acampei e fui sozinho com o guia. Valeu pelo texto, me ajudou muito!
Muito bom o texto, já fiz esse trajeto e para mim foi de muita superação pois sou meio sedentário e pra piorar sou fumante a 22 anos, no segundo dia tive que tomar dorflex pras dores musculares mas no resto foi tudo maravilhoso, queria voltar pelo mesmo caminho…
Só pra reforçar que a Dona Benta faleceu tem anos mas o sobrinho dela preserva o lugar do mesmo jeito que ela, com muita receptividade e hospitalidade, melhor travessia do Brasil,