Depois de alguns dias intensos de passeios pelo Peru, era hora de descer até a Bolívia. Acompanhada por uma amiga, saí às 22h de Cusco e por volta das 7 horas da manhã estávamos em Puno, cidade fronteiriça, rodeada pelo Lago Titicaca. Aproveitamos o dia para fazer um passeio por lá antes de cruzar a fronteira.

O dia em Puno foi produtivo, visitamos a Plaza de Armas, onde está localizada a Catedral, um belo exemplar da arquitetura barroca. Tivemos a feliz coincidência de passar pela cidade em um dia festivo, quando comemoravam o aniversário da Universidad Nacional del Altiplano com direito a desfiles de rua em trajes típicos. Ainda deu tempo de fazer o passeio imperdível pelas ilhas flutuantes de Uros e Taquile, que rende assunto para outro artigo.

No fim da tarde, era chegada a hora de nos dirigirmos ao terminal rodoviário para enfim pegarmos o ônibus que nos levaria à Copacabana, na Bolívia, de onde seguiríamos para a capital, La Paz.

Tudo ia de vento em popa. Viajávamos em um ônibus confortável, limpo e sem nenhum passageiro barulhento. Depois de 5 horas de viagem, chegamos à fronteira. Como de praxe, tivemos que descer do ônibus, passar pela aduana com nossas mochilas e registrar a saída do país. Feito isso, era só seguir a pé para a imigração da Bolívia, já com os papéis preenchidos. Enquanto as pessoas se organizavam, deu tempo de tirar algumas fotos no letreiro antes de cruzarmos o arco de pedra que marca a divisa entre os dos países.

Letreiro na fronteira entre Peru e Bolívia

Letreiro na fronteira entre Peru e Bolívia. Créditos: Laura Almeida

Já no lado boliviano as coisas não foram tão suaves. Entramos na fila da imigração, primeiro eu, depois Laura e esperamos a nossa vez de passar pelos guardas. Comigo correu tudo dentro do esperado. Pediram o meu passaporte, deram uma folheada nele e fui liberada para entrar na fila do carimbo. Minha amiga, por sua vez, não teve a mesma sorte.

A dupla de oficiais que a interceptou pediu uma autorização emitida pelo consulado boliviano aqui no Brasil para que ela entrasse no país. E é claro que ela não tinha esse documento, assim como eu também não tinha, nem qualquer outro brasileiro que por ventura estivesse naquele ônibus. Para atravessar a fronteira entre Peru e Bolívia basta apresentar um documento de identificação, como o passaporte ou a carteira de identidade (nesse caso, é necessário deixar uma cópia, então tire xerox antes para adiantar o processo).

Fiquei parada na fila, na dúvida entre esperar a decisão dos agentes ou sair correndo e explicar a situação para o motorista do ônibus que nos aguardava mais à frente. Enquanto isso, minha amiga tentava argumentar que aquilo não era necessário e que outros brasileiros já tinham passado pela imigração sem maiores transtornos.

Todos os esforços foram em vão. Os agentes não queriam se fazer entender, falavam tão rápido que até hoje temos dúvida se aquilo era espanhol ou um dialeto da região. Essa foi a única parte desagradável de uma viagem sensacional. Na hora era notável que eles não estavam ali para dialogar, mas para pirraçar a turista brasileira.

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Para ler em seguida

O motivo da implicância

Esse episódio se passou em setembro de 2013, época em que o governo brasileiro adotava medidas para reforçar a segurança nas fronteiras com Peru e Bolívia a fim de combater o tráfico internacional de drogas e de armas, além de frear a imigração ilegal, tendo em vista que famílias bolivianas estavam sendo escravizadas em fábricas no Brasil, vivendo em condições subumanas. Ao tentar impor um controle à entrada de estrangeiros no país, recebemos o troco na mesma moeda lá fora. Esse impasse foi momentâneo, mas a extorsão continua e é importante saber como agir se algo semelhante acontecer durante a sua viagem.

Como proceder

A arbitrariedade dos policiais da fronteira é um problema recorrente na América do Sul

A arbitrariedade dos policiais da fronteira é um problema recorrente na América do Sul. Créditos: Laura Almeida

Graças ao acordo de livre circulação entre os países do Mercosul, cidadãos oriundos de países membros têm direito a 90 dias de estadia em qualquer país pertencente ao grupo, desde que para fins de turismo.

Atenção!!! Todo mundo que entra na Bolívia por vias terrestres precisa receber um comprovante, a Tarjeta Andina de Migración, que é entregue pela polícia boliviana no controle de imigração. Nesse documento fica registrada a data da sua entrada e qual é o prazo que foi concedido para você ficar no país.

Caso o posto policial de imigração esteja fechado no horário que você for cruzar a fronteira, espere a reabertura para receber o seu comprovante de entrada legal na Bolívia. Os postos de fronteira fecham para horário de almoço e à noite, por volta das 19h.

Se não houver nada de errado com a sua ficha e você não for foragido da polícia, é direito seu receber esse documento. Não compactue com a corrupção, jamais pague suborno! Caso se sinta coagido ou tenha sido vítima de extorsão, faça uma denúncia no Consulado.

No caso da minha amiga, não precisamos ir tão longe. Naquela altura do campeonato apenas um único oficial continuava insistindo na história da autorização, mas quando ele piscou, a Laura já estava na fila do carimbo e mais que depressa a gente zarpou de lá com os comprovantes de entrada no país em mãos.

Casas de câmbio na fronteira

Existem algumas casas de câmbio na fronteira entre Peru e Bolívia, mas tinham as piores taxas de conversão e nenhuma me pareceu muito confiável, por isso só troquei uma pequena quantia necessária para pagar despesas com alimentação e transporte no primeiro dia em La Paz, até achar um caixa eletrônico para sacar o restante da grana.

Aprenda a identificar notas falsas de bolivianos e soles peruanos

Volta para Cusco

Em La Paz, antes de seguir de volta para Cusco e atravessar a fronteira entre Peru e Bolívia de novo

Em La Paz, antes de seguir de volta para Cusco e atravessar a fronteira entre Peru e Bolívia de novo. Créditos: Laura Almeida

O nosso voo de volta para o Brasil partia de Cusco, então precisamos atravessar novamente a fronteira entre Peru e Bolívia, fazendo o caminho inverso. Dessa vez não passamos por nenhum problema, foi tudo tranquilo e calmo. Só tivemos que entregar o papel onde estava documentada a nossa entrada no país, aquele que recebemos quando chegamos à Bolívia. Se você perdê-lo, vai ter que pagar uma taxa para sair do país, mas o valor exato eu não sei.

No meio do caminho a polícia parou o ônibus e começou a revistar algumas mochilas, acordamos com a lanterna na nossa cara. Portanto, se você está cogitando a possibilidade de transportar alguma coisa que sabe que não deveria, é melhor repensar essa ideia.

No mais, escolha roupas bem confortáveis e monte uma playlist para curtir durante o trajeto, pois a viagem é longa.

Buena suerte y que te vaya bien!

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Gisele Rocha

Formada em Comunicação Social pela UFJF. Andou meio mundo tentando descobrir o que queria fazer, até descobrir que queria mesmo era andar pelo mundo.

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Créditos da imagem de capa: Laura Almeida

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